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Xirê dos revoltados ou Não matem meu candomblé



Não façam do meu candomblé um carnaval de gente imunda. Que não sabe o que é bater cabeça, deitar na esteira, nem passar por restrições para manter fluída a sua energia. Não venham buscar no meu axé remédio para sanar a sua incompetência de superar as fraquezas com dignidade.
Eu quero meu candomblé vivo!
Que agora se fechem todas as portas, pois estamos em tempo de arrumar a bagunça. Por Exu, por Ogum, por Oxóssi, Xangô e Oxaguiã. Eu convoco as energias da guerra para firmes irmos guerrear.
Temos que limpar a bagunça.

Não saia da sua casa de ouro, onde preto não pode entrar
Para tomar banho de folha
Aqui neste canzuá.
Não venha buscar feitiço
Para trazer para sua estrada
Seu marido iludido
Que se perdeu nas encruzilhadas.

Eu peço para Ogum expulsar todos os malfeitores que fazem do meu axé um comércio sem fim. Onde os irmãos pretos e pobres não podem mais pagar suas obrigações. Cadê a união do meu povo que dava cada um de um pouco para fortalecer a sua fé? Será que o dinheiro, a ganância e o lucro matará meu candomblé? 

Está tudo branco de mais. Precisa ficar preto, preto que para nós negros sempre significou a paz.

A maior guerra que temos que travar é contra os nossos. Infelizmente há muita desordem, falta de hombridade e compromisso com nossos ancestrais:

Minha vizinha Joana está há dois anos a bolar
 O santo cobrando a obrigação,
 Mas seu pai de santo nada santo
 Cobrou bem mais, seis mil reais, irmão!

Tá mais fácil ser filho de Satanás.
Seis mil reais é para comprar feira pro ano inteiro
Pagar água, luz e gás.

Ai, vendo esses desarranjos, tem muita gente no canto perdendo a sua fé.
- É isso que é candomblé?
- É isso que é orixá?
-É isso que é axé?

Tem gente confundido a vaidade de Oxum com a vaidade da alma.
Calma, calma, calma!
A vaidade de mamãe Oxum trás para a estética o que dentro transborda. Não adianta dar uma de rainha no terreiro se dentro do galinheiro você não entrar para pegar uma avezinha no poleiro. Não adianta pousar de rei se há muito trabalho na no dia a dia e pouco você faz. 
 
Ser rei e rainha no axé é ter respeito, zelo, fé...
Há quem pense o contrário
E faça de escravizado
O abiã
O yaô
O suspenso
E quem mais for.
Como se não fosse pouco então
Colocam todos estes no pilão
E pisam
Humilham
Castigam
Exploram
E só fica a podridão.

Mas há ebó para trazer o amante do engravatado em três dias
Para resolver a contenda do juiz
Para enriquecer mais e mais a presidenta Maria.
Convoca energia para ajudar aquele que aparece quando precisa
E depois não vem mais.
Ou vem com dinheiro, que pra alguns do nosso meio
Se muito tem muito se faz.

Há gente de Ketu se achando melhor que o de Angola
Há gente de Angola se achando melhor que os de Mahi e Savalu
Há gente de Mahi e Savalu se achando melhores que os de Ketu.
Um ciclo perverso de uma vaidade burra
Que bem sabe o cego que a união é força
Força viva que tudo cura.

A estes clamo à justiça do universo que nunca falha. Como canta meus irmãos de Angola:

Oh sete, Oh sete
Oh sete encruzilhadas
Toma conta presta conta
No romper da madrugada.

Obaluaê está pronto para varrer tudo que não presta do nosso axé. Oxumaré não ligará nenhum ritual até que todo mal volte para sua origem colonizadora de onde nunca deveria ter saído. Eu preciso me banhar na lama de Nanã, morrer, renascer e transcender. Mergulhar nas águas profundas de Oxum e emergir das águas salgadas de Iemanjá. Energias que renovam o mundo. Energias que nos fazem melhorar.

Aos pés de Iroko me banho com as folhas de Ossanha para que meu axé seja renovado. Iansã balé encaminhará as almas dos hipócritas, corruptos, mercenários e ingratos, que tentaram destruir o nosso culto, para o orum do esquecimento.
Óba é a guerreira que guardará o portão.
 Ewá tratará de purificar o sangue dos que ficarem fortalecendo o caráter que erguerá a nossa multidão.

Que as águas de Oxalá possam nos lavar
Possam nos fazer enxergar
O que os Ibejis estão a cantar.
O tempo está turbulento
O mundo está barulhento
Temos que nos revoltar
Ou os Ibejis cantarão a lamentar
A triste noite sem luar.

Onde os orixás decepcionados nos abandonarão
 E nos deixarão fedendo em plena escuridão.

Só nos basta rezar?



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