Ele é Senhor do
desconhecido e de tudo aquilo que deve ficar oculto. Guardião de todos os
segredos e fundamentos (do candomblé). Sua energia é responsável pela
manutenção da tradição e igualmente limpa aquilo que já fora consumido
pelo tempo.
Quando dança o Opanijé
todos devem ficar em silêncio para que sua fúria não seja despertada. A imagem
do vulcão, a terra quente, densa e silenciosa, que a qualquer momento pode se
tornar devastadora, ilustra a sua potência.
Todo seu corpo está
coberto por palha. Para alguns elas escondem as suas feridas, outros
dizem que elas ocultam sua grandiosa beleza que, como raios do sol, pode
cegar. Eu acredito que são as duas coisas; dependerá do modo que a energia de
cada pessoa dialogará com a do Velho.
No Opanijé, levemente curvado, mostrando assim seus anos
de existência, deslocando para direita e para esquerda e virando a palma da mão
para baixo e para cima, faz-nos perceber que todas as dualidades estão no mesmo
lugar, coexistindo, em equilíbrio: vida e morte, saúde e doença, alegria e
tristeza, sorrir e chorar, fome e fartura, companhia e solidão... Ao apontar
para os cinco sentidos Ele nos ensina a ter temperança: saber ver, ouvir,
falar; nem tudo pode ser cheirado tão pouco tocado.
Omolu é o
silêncio que muito diz
É quem pisa
forte e manso
Protege, acolhe,
cobre, cura
Abandona,
expulsa, pisa e faz adoecer
Sua voz é
estrondosa
Fala ao sacudir
toda sua palha
Só podemos
ouvi-lo com todo o corpo.
Em dado momento ele aponta
com o dedo indicador para ferida na palma das mãos. Omolu nunca escondeu suas
dores, seu sofrimento, seu martírio. Há itans que contam que ao nascer ele fora
abandonado por sua mãe Nanã que não aceitava ter um filho vítima da varíola.
Nanã o deixou próximo à praia para que Iemanjá ficasse responsável pelos cuidados
da criança. Anos mais tarde, ao encontrar sua mãe Nanã, o Senhor da palha a
perdoa pelo abandono. Em sua dança ele vai ao chão tremendo, torcendo, coçando suas feridas e levanta
passando as mãos pelo corpo, jogando suas dores, feridas e tormentos para o
alto, transformando-as em pipoca – símbolo da purificação, renovação,
transformação e transcendência.
Assim nos ensina que as
dores, sofrimentos, decepções e frustrações fazem parte da nossa existência.
Todo ser humano irá passar, em algum momento, por períodos de dificuldades. O
que nos faz ser fortes perante essas dificuldades é a capacidade de sermos
resilientes e aprender com o sofrimento. Olhar para nossas dores,
reconhecê-las, buscar formas de superá-las, transformando-as em pipoca. Se até
uma divindade passou por um processo de abandono, de tristeza, de ser tido como
inferior por ter seu corpo coberto pelas feridas da varíola, imagine nós,
mortais, em processo de aprendizagem constante...
Não estamos de maneira
alguma brindados ao sofrimento. Mas com Omolu temos a capacidade de aprender a importância do sofrimento para nos tornamos seres humanos melhores.
Omolu é mistério, mas
seus mistérios podem ser revelados a quem ele achar merecedor. Alguns mistérios
estão à disposição e o merecimento não é destinado para os bons ou ruins, mas
para aqueles que enxergam para além do que seus olhos biológicos
conseguem perceber. Para aprender o que a dança de Omolu tem a nos ensinar é preciso construir um olhar amplo.
As vezes o mistério está revelado, mas não pode ser visto pela superficialidade de alguns olhares.
Que Omolu esteja sempre
conosco nos fazendo entender que alegria e tristeza, saúde e doença, vida e
morte faz parte da complexidade do existir. Estas dualidades, interagindo
harmoniosamente, constituem o equilíbrio do universo – principalmente do universo
que é o nosso corpo. É este equilíbrio que devemos buscar para um bom desenvolvimento
espiritual e fortalecimento da nossa humanidade.
Atotô Ajuberô!
