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Opanijé: Omolu e os ensinamentos presentes em sua dança





Omolu é um vodum cercado de mistérios. Há quem diga que Omolu é o velho senhor e Obaluaiê a sua fase jovem. Aqui irei entender, ainda que possam existir diferenças, os dois como parte da mesma energia, já que ambos dançam o Opanjié: dança dos silêncios, da vida e da morte. Convido vocês a pensarmos essa dança para além dos movimentos, pois dentro do candomblé entendemos que na dança está contida uma infinidade de significados, filosofias e ensinamentos. 
 
Ele é Senhor do desconhecido e de tudo aquilo que deve ficar oculto. Guardião de todos os segredos e fundamentos (do candomblé). Sua energia é responsável pela manutenção da tradição e igualmente limpa aquilo que já fora consumido pelo tempo.

Quando dança o Opanijé todos devem ficar em silêncio para que sua fúria não seja despertada. A imagem do vulcão, a terra quente, densa e silenciosa, que a qualquer momento pode se tornar devastadora, ilustra a sua potência. 

Todo seu corpo está coberto por palha. Para alguns elas escondem as suas feridas, outros dizem que elas ocultam sua grandiosa beleza que, como raios do sol, pode cegar. Eu acredito que são as duas coisas; dependerá do modo que a energia de cada pessoa dialogará com a do Velho.

No Opanijé, levemente curvado, mostrando assim seus anos de existência, deslocando para direita e para esquerda e virando a palma da mão para baixo e para cima, faz-nos perceber que todas as dualidades estão no mesmo lugar, coexistindo, em equilíbrio: vida e morte, saúde e doença, alegria e tristeza, sorrir e chorar, fome e fartura, companhia e solidão... Ao apontar para os cinco sentidos Ele nos ensina a ter temperança: saber ver, ouvir, falar; nem tudo pode ser cheirado tão pouco tocado. 

Omolu é o silêncio que muito diz
É quem pisa forte e manso
Protege, acolhe, cobre, cura
Abandona, expulsa, pisa e faz adoecer
Sua voz é estrondosa
Fala ao sacudir toda sua palha
Só podemos ouvi-lo com todo o corpo.

Em dado momento ele aponta com o dedo indicador para ferida na palma das mãos. Omolu nunca escondeu suas dores, seu sofrimento, seu martírio. Há itans que contam que ao nascer ele fora abandonado por sua mãe Nanã que não aceitava ter um filho vítima da varíola. Nanã o deixou próximo à praia para que Iemanjá ficasse responsável pelos cuidados da criança. Anos mais tarde, ao encontrar sua mãe Nanã, o Senhor da palha a perdoa pelo abandono. Em sua dança ele vai ao chão tremendo, torcendo, coçando suas feridas e levanta passando as mãos pelo corpo, jogando suas dores, feridas e tormentos para o alto, transformando-as em pipoca – símbolo da purificação, renovação, transformação e transcendência.

Assim nos ensina que as dores, sofrimentos, decepções e frustrações fazem parte da nossa existência. Todo ser humano irá passar, em algum momento, por períodos de dificuldades. O que nos faz ser fortes perante essas dificuldades é a capacidade de sermos resilientes e aprender com o sofrimento. Olhar para nossas dores, reconhecê-las, buscar formas de superá-las, transformando-as em pipoca. Se até uma divindade passou por um processo de abandono, de tristeza, de ser tido como inferior por ter seu corpo coberto pelas feridas da varíola, imagine nós, mortais, em processo de aprendizagem constante... 

Não estamos de maneira alguma brindados ao sofrimento. Mas com Omolu temos a capacidade de aprender a importância do sofrimento para nos tornamos seres humanos melhores.

Omolu é mistério, mas seus mistérios podem ser revelados a quem ele achar merecedor. Alguns mistérios estão à disposição e o merecimento não é destinado para os bons ou ruins, mas para aqueles que  enxergam para além do que seus olhos biológicos conseguem perceber. Para aprender o que a dança de Omolu tem a nos ensinar é preciso construir um olhar amplo. As vezes o mistério está revelado, mas não pode ser visto pela superficialidade de alguns olhares.

Que Omolu esteja sempre conosco nos fazendo entender que alegria e tristeza, saúde e doença, vida e morte faz parte da complexidade do existir. Estas dualidades, interagindo harmoniosamente, constituem o equilíbrio do universo – principalmente do universo que é o nosso corpo. É este equilíbrio que devemos buscar para um bom desenvolvimento espiritual e fortalecimento da nossa humanidade. 

Atotô Ajuberô!

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