Diversas traduções possui a palavra abiyan. Por isso optei por uma que dialogará bem com o desenvolvimento deste texto: “aquele que começa um novo caminho.” Mãe Stella de Oxóssi, em seu livro “Meu tempo é agora”, considera abiyan, especialmente, aqueles que têm orixás assentados, contas lavadas ou passou por um ritual de borí. Eu aqui – com todo respeito à concepção da nossa grande mãe – somarei a esta noção algumas outras:
Abiyan é a pessoa que inicia a sua caminhada dentro do candomblé e busca entender a sua espiritualidade a partir da perspectiva desta religião. Este é o período em que o sujeito está em processo de experienciar o axé (candomblé) e compreender, ao longo da sua vivência, que tipo de relação irá construir com este ambiente religioso. Trata-se, pois, de um tempo onde a pessoa não é iniciada no culto e busca entender se aquele de fato é o seu lugar, se deseja se iniciar ou não e qual a melhor forma de conduzir a sua espiritualidade naquele espaço.
Penso que a vivência com no candomblé deve surgir a partir, primariamente, da afinidade que a pessoa constrói com o seu orixá, vodun ou nkisse. Nada lhe deve forçar a estar no candomblé. Esse "chamado" deve vir com o despertar de um desejo de fortalecimento do seu elo ancestral. Se seu estar neste espaço é algo que se sustenta em imposições e medos já é algo começado dentre equívocos.
Infelizmente o candomblé vem sendo dominado pelo capitalismo e este cria diversas estratégias para manipular as pessoas. É preciso ter cuidado para não cair nas mão de malfeitores, usurpadores e caráteres duvidosos que visam apenas ter a casa cheia e, com isso, sustentar seus bolsos e egos. Qualquer pessoa, adentrando uma nova religião, para se autoproteger, deve ter uma relação crítica com ela. O período de Abiyan será aquele necessário para a busca de resposta para alguns questionamentos, conversas com iniciados e iniciadas, consultar jogos de pessoas de referência e confiáveis para elucidar dúvidas nubladas, além da compreensão ampla do seu ser-estar na comunidade de terreiro.
Infelizmente o candomblé vem sendo dominado pelo capitalismo e este cria diversas estratégias para manipular as pessoas. É preciso ter cuidado para não cair nas mão de malfeitores, usurpadores e caráteres duvidosos que visam apenas ter a casa cheia e, com isso, sustentar seus bolsos e egos. Qualquer pessoa, adentrando uma nova religião, para se autoproteger, deve ter uma relação crítica com ela. O período de Abiyan será aquele necessário para a busca de resposta para alguns questionamentos, conversas com iniciados e iniciadas, consultar jogos de pessoas de referência e confiáveis para elucidar dúvidas nubladas, além da compreensão ampla do seu ser-estar na comunidade de terreiro.
Herdamos da cultura cristã a ideia de que as nossas espiritualidades nos castigam por termos escolhas diferentes daquelas que disseram que são as escolhas destas espiritualidades para o nosso “destino”. Sim, talvez aja uma relação maior que o nosso mundo visível. Isso, entretanto, não trata-se de uma obrigação onde devemos realizar aquilo que a ancestralidade nos incumbiu. Não acredito em futuros imutáveis, pois todos nós somos responsáveis pelas nossas escolhas e pela construção do nosso caminhar.
Há espaço para o não. Há espaço para entender que o candomblé não é o seu lugar. Há espaço para cultuar orixá, vodum ou nkisse fora do candomblé ou fora do terreiro a qual você teve certa vivência. Não caia em nenhum tipo de discurso aprisionador. A ancestralidade não compactua com atitudes que visam trazer sofrimento para as pessoas. Faça sua escolha consciente e evite sofrimentos futuros. Não esteja em um ambiente por obrigação. Esteja nele por amor, devoção e afeto.
Há espaço para o não. Há espaço para entender que o candomblé não é o seu lugar. Há espaço para cultuar orixá, vodum ou nkisse fora do candomblé ou fora do terreiro a qual você teve certa vivência. Não caia em nenhum tipo de discurso aprisionador. A ancestralidade não compactua com atitudes que visam trazer sofrimento para as pessoas. Faça sua escolha consciente e evite sofrimentos futuros. Não esteja em um ambiente por obrigação. Esteja nele por amor, devoção e afeto.
Assim sendo, é preciso que o abiyan adentre o candomblé aberto a ser atravessado por essa experiência singular, onde o seu corpo irá traduzir as sensações que essa experiência lhe provoca. Mãe Stella de Oxóssi ensina:
“O período de abiyan é de suma relevância, principalmente para os de “conta-lavada” e “obrigação” de borí. É o período de experiência, digamos assim. Pois podem refletir sobre as responsabilidades do que é ser um adosu [iniciado], de maneira acurada. Ver se é isso mesmo que desejam. Vão conhecendo o Egbé [sociedade/associação], pensando sobre a hierarquia, vivenciando o dia-a-dia do àse[candomblé]. Para tanto, devem observar o comportamento dos mais velhos, dos olóyè[aquele que possui cargo no terreiro]. Falar pouco e abrir os ouvidos. Verificar se é possível a adaptação ao ilê [casa/terreiro] e a ìyálorìsa[mãe-de-santo]. O tempo mais significativo na vida de um filho-de-santo é este: o de abiyan.” (Mãe Stella de Oxóssi, 2010).
Em oposição ao que Mãe Stella propõe, vemos diversas pessoas querendo atropelar o seu tempo de abiyan. Por consequência há uma significativa quantidade de yaôs (iniciados) arrependidos de terem se apressado, pois acabaram conhecendo a realidade da casa (que era para ser conhecida em seu tempo de abiyan) após a sua iniciação.
Não podemos tirar responsabilidade das mães e pais de santo que atiaçam o desejo precoce de iniciação do abiyan ao amedrontar, impor ou criar situações para que o filho-de-santo queira se iniciar. Há sim casos em que a iniciação imediata é o recomendável, mas estes são casos específicos e pontuais e não uma enxurrada, por uma questão mercantilista, aprisionadora e de obtenção de benefícios, como vemos atualmente. Mesmo assim, isso é uma escolha e não uma imposição.
Sobre isso Mãe Stella nos alerta:
Sobre isso Mãe Stella nos alerta:
“É temerária a iniciação imediata devido à complicada hierarquia do Mundo do Candomblé. Daí os erros, arrependimentos e acusações. O bom adosu, na maior parte das vezes fora um bom abiyan. Hoje em dia, as pessoas têm muita pressa de se infiltrar nos corredores de um Terreiro, sem qualquer respaldo emocional. E pior, há iniciadores que, talvez por inexperiência, ganância e outras diferentes razões vão logo colocando os clientes no Quarto-de-àse. Na maioria das vezes, isto não dá certo. Acaba sendo motivo de arrependimentos e frustrações para ambos os lados. Tem que haver essa experiência prévia[grifo nosso].”(Mãe Stella de Oxóssi, 2010).
Esse posicionamento de Mãe Stella é pertinente, pois processos de frustração pós-inicialização são recorrentes. A própria Mãe Stella destaca em Meu Tempo é Agora que “há pessoas que passam a vida inteira na condição de abiyan” e, por isso, nem todo candomblecista precisa ser iniciado.
A iniciação ter que vir por uma construção afetiva madura entre o abiyan e o seu orixá. Uma zeladora ou um zelador deveria ser (mas quase sempre não é) a intermediadora ou o intermediador desse processo e não o determinante. Orixá, vodun ou nkisse é caminho, amor, afeto e proteção, mas também é responsabilidade; responsabilidade esta que, para além da relação entre sujeito e ser ancestral, se reverbera também para a relação com a religião e com a comunidade.
Cultive sua espiritualidade, amadureça a relação com seu orixá, com o terreiro, com sua/seu zeladora(o) e a comunidade, questionando sempre se esta é a religião que você deseja para sua vida. Lembre-se que ainda que o candomblé seja o teu caminho a iniciação depende de outros fatores cujo determinante é você e teu orixá. No mais tenha tranquilidade de viver a experiência, sem se atropelar.
Oxalá é um ancestral poderoso, ainda assim caminha em passos lentos.
Axé irmãos!
Referências:
SANTOS, Maria Stella de
Azevedo. Meu Tempo é Agora. 2° Ed.
Salvador. Assembléia Legistaliva do Estado da Bahia, 2010.
Heide D’Óxum, Sou abian. Qual a minha função no axé? Disponível
em: <https://candombledabahia.wordpress.com/2013/05/01/
sou-abian-qual-a-minha-funcao-no-axe/ > Acesso em: 03 de junho de 2017.
