Há uma celebração bonita no bairro mais boêmio de Salvador e todos vão entregar presentes para Yemojá no dia 2 de fevereiro. Ao mesmo tempo jogam vários tipos de destroços no mar degradando essa energia. Chegado o Carnaval não há mais o disfarce da espiritualidade. Yemojá torna-se a inimiga e é violentada por todos: latas de cerveja, garrafas plásticas e até preservativos são dispensados no ventre da Òrìsà. A incoerência é o nosso nome. Yemojá é a primeira violentada...
As porradas que tomamos ao longa vida vai nos ensinando a lidar com a realidade de uma forma menos romântica. Não dá para assumir sempre a postura da Yemojá mãe, acolhedora, aquela que alimenta a todas e todos com seu seios fartos. Em dado momento é preciso parar, colocar limites e dizer não.
Se hoje, dia 08 de Março, vemos nos noticiários que as mulheres negras são as que mais sofrem violência doméstica, não podemos esquecer que estas são as mulheres educadas para uma resistência além dos limites saudáveis do resistir. Mulheres que encontram na dor motivação para viver. Não há nenhuma beleza nisso. Mulheres que lutam pelos filhos arrogantes, rebeldes e ingratos; esposas incapazes de, após agressões físicas e psicológicas, por o marido violento para fora de casa. Um acúmulo de lixo existencial entalado na garganta.
Mas Yemojá é o mar calmo e acolhedor que também se rebela, torna-se intempestivo e afoga.
Não dar para ser maltratada constantemente. O corpo possui limites e cansa de se regenerar. Chega o tempo em que ele quer não mais ser violentado. E lutará para não receber nenhum tipo de agressão. Quando os limites são posto em prática, parece que somos as “agressivas reversas”. Mas não. É o corpo físico-psíquico-espiritual dizendo que não aguenta mais. Secou o leite do seio. No nosso corpo os agressores passarão fome.
O colo infinito de Iemanjá se fecha. E quando ele se fecha é quase impossível reabri-lo. O coração ferido pulsa forte e as lágrimas deságuam em descontrole: viram Tsunami. É aí que as pessoas são tiradas da vida dessa mulher forte sem aviso prévio (pois todos avisos já foram dados). Outras serão jogadas no mar de esquecimento. E há os que não mais existirão para a grande Mãe.
Yemojá-Tsunami invade a cidade hipócrita e devolve não só o lixo, mas também as violências sofridas até o presente momento. Alaga casas, destrói carros, pessoas e consome o que encontra à sua frente. A grande onda vai engolindo tudo e todos que lhe agrediram. O mar acolhedor tornou-se mar de revolta. E por vezes, só depois de engolir a terra injusta, é que o mar pode se aquietar.
TEXTO: Van Omoloji
IMAGEM: André Hora
